A guerra russo-ucraniana reacendeu no senso comum a expectativa por um desfecho bélico definitivo, no qual um dos lados emergiria triunfante após o colapso total do outro. No entanto, a ideia da vitória militar absoluta é uma ilusão perigosa. O "mito da vitória militar" cega governos e sociedades para a realidade das guerras de escolha contemporâneas. Uma vitória política sustentável não se constrói pela supremacia no campo de batalha, mas essencialmente pela negociação e pela manobra inteligente de recursos no território disputado.
Para que o encerramento de um conflito seja duradouro, é imperativo que o lado em desvantagem aceite a nova realidade e reconfigure seus objetivos estatais. O fim da Segunda Guerra Mundial ilustra essa dinâmica. Embora a Conferência de Casablanca tenha inicialmente exigido a "rendição incondicional", a subsequente Declaração de Potsdam adotou contornos muito mais pragmáticos para garantir a paz. O Japão manteve a figura do Imperador, evitou a divisão de seu território entre os Aliados e redirecionou seu orgulho nacional para a inovação tecnológica e a reconstrução moral. A Alemanha, por sua vez, não teve seu parque produtivo aniquilado; sua indústria pesada foi mantida e reconfigurada para a economia de paz. A vitória dos Aliados consolidou-se porque os derrotados foram integrados a uma nova ordem, e não erradicados.
"Uma vitória política sustentável não se constrói pela supremacia no campo de batalha, mas essencialmente pela negociação e pela manobra inteligente de recursos no território disputado."
A busca incessante pela destruição total do adversário é historicamente custosa. Desde as Guerras Napoleônicas, exércitos derrotados chegam a perder, em média, até 80% de suas forças operacionais em batalhas de atrito antes que um colapso político force o fim das hostilidades. Em contraste com a fantasia da aniquilação, conflitos modernos complexos, como a Guerra da Coreia e a Guerra da Bósnia, foram eficientemente congelados por meio de armistícios e intensas negociações diplomáticas que reconheceram os limites do uso da força.
Trazendo esse prisma para o atual conflito no Leste Europeu, a notável resiliência da resistência ucraniana impõe custos assimétricos e contínuos às forças russas, evidenciando que qualquer solução de longo prazo exigirá arranjos políticos na mesa de negociação, e não apenas o avanço de blindados. Do lado de Moscou, a própria conduta tática indica um cálculo focado na preservação de capacidades. O Kremlin tem priorizado o emprego de sistemas de guerra eletrônica e plataformas de controle e alerta aéreo antecipado (AWACS), mantendo uma postura operacional cautelosa para preservar a Força Aérea Russa. A abstenção do uso massivo de caças de quinta geração (como o Su-57) no espaço aéreo contestado atesta que mesmo a potência agressora calcula os riscos de um conflito de aniquilação total, preferindo resguardar seus ativos estratégicos de longo prazo.
Em suma, o mito da vitória bélica irrestrita precisa ser desconstruído nas análises contemporâneas de defesa. O desfecho na Ucrânia não será ditado exclusivamente pelo esgotamento das linhas de frente, mas pelo momento em que a exaustão mútua e a racionalidade geopolítica forçarem ambos os beligerantes a reconfigurarem seus imperativos estratégicos, aceitando que a verdadeira vitória reside na crescente de estabilidade política pós-conflito.